Twitter Facebook Instagram
Para acessar sua área PDO, insira os campos abaixo.

Dificuldade de acesso ao crédito, juros altos, jornada tripla e preconceito dificultam crescimento do empreendedorismo feminino

Notícias 20 de janeiro de 2026

Por Ana Claudia Badra Cotait 

Em 2025 o empreendedorismo feminino no Brasil alcançou números que merecem comemoração e atenção. Os dados mostram que mais de 10 milhões de mulheres estão à frente de negócios no país, um recorde que expressa tanto a resiliência quanto a iniciativa feminina diante de um mercado em transformação. 

Apesar desse aumento em participação, o cenário revela fragilidades estruturais que podem limitar a sustentabilidade e o crescimento desses empreendimentos. Em termos de representatividade, as mulheres corresponderam a cerca de 34% dos empreendedores, sinalizando progresso, mas também a existência de barreiras em relação à igualdade de gênero na economia. 

Um dos maiores desafios que nossas empreendedoras enfrentam é o acesso ao crédito. Estudos apontam que apenas uma parcela reduzida dos recursos destinados a pequenos negócios – cerca de 25% – chega às mulheres enquanto existem muitas linhas que beneficiam majoritariamente empreendimentos masculinos. Essa diferença significa menos capital para investimentos, estoque e profissionalização das empresas lideradas por mulheres. 

Outro problema são as taxas de juros mais altas cobradas das empreendedoras. Pesquisas apontam que empresárias, especialmente as microempreendedoras, chegam a pagar taxas médias efetivas superiores às dos homens, reduzindo ainda mais a viabilidade financeira de expansão dos seus negócios. Essa diferença agrava desigualdades já existentes e aumenta o risco de endividamento e de fechamento prematuro. 

Outro aspecto que precisa ser considerado é a jornada das empreendedoras. Muitas mulheres acumulam uma jornada dupla ou tripla que engloba administrar o negócio, cuidar da casa e também da família, o que limita tempo para gestão estratégica, capacitação, networking e busca por novos mercados. Pesquisas apontam alto índice de sobrecarga das empreendedoras, com impactos diretos na produtividade, na capacidade de inovação e na expansão dos negócios. 

As desigualdades raciais também atravessam esse ecossistema: negócios de propriedade de mulheres negras tendem a ser menores, com menor formalização e menor renda média, o que exige políticas específicas de inclusão e fomento para reduzir essa assimetria territorial e racial. 

Para 2026, precisamos consolidar os ganhos de participação feminina e reduzir as vulnerabilidades que limitam a qualidade desse avanço. Algumas prioridades práticas e políticas públicas devem priorizar: 

Linhas de crédito: ampliar produtos financeiros com juros e garantias compatíveis à realidade de micro e pequenas empresárias, incluindo planos específicos para MEIs lideradas por mulheres e por negras. 

Desburocratização dos serviços: expandir e digitalizar capacitação, consultorias e redes de mentoria, com oferta em horários e formatos compatíveis com jornadas reduzidas. 

Compras públicas: criar cotas e estímulos para que compras governamentais e grandes cadeias contratem produtos e serviços de empreendedoras. 

O Brasil vive hoje um momento promissor no protagonismo feminino no empreendedorismo com mais empreendedoras, que significam mais diversidade de ideias, mais resiliência econômica e maior dinamismo para a economia local. Entretanto, sem ações estruturais que enfrentem o acesso desigual ao crédito, o ônus das taxas mais altas, a sobrecarga de trabalho e as desigualdades raciais, corre-se o risco de que o crescimento permaneça concentrado em negócios de subsistência, em vez de negócios sustentáveis e escaláveis. 

Precisamos reconhecer o avanço quantitativo e, ao mesmo tempo, implementar medidas que transformem qualidade, igualdade e oportunidade em resultados concretos. Só assim transformaremos a presença feminina no empreendedorismo em um motor potente de desenvolvimento econômico e social para todo o país. 

Ana Claudia Badra Cotait é presidente do Conselho Nacional da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) da CACB e da Facesp

Parceiros

CACB CMEC Equifax | Boa Vista SEBRAE